8 de março de 2014

não me dê flores, leia este texto.


“Feliz Dia da Mulher”: 
Você, mulher, ouviu ou leu essas palavras hoje? 
Você, homem ou mulher, disse ou escreveu essas palavras alguma vez? 
Eu imagino que sim. Mas também imagino que você não tenha se perguntado por quê. 
Primeiro, a boa notícia: não é culpa sua. Talvez nunca ninguém tenha te contado algumas coisas. 
Agora vamos à má notícia: nós não estamos felizes. 

Ontem, no trabalho, se eu quisesse teria a opção de aproveitar 15 minutos de massagem grátis. Tratamento VIP oferecido apenas às mulheres por seu dia.
Ao sair pra almoçar, eu não tive a opção de não ser verbalmente abusada por um motorista que diminuiu a velocidade ao passar por mim em uma rua vazia. Tratamento social oferecido às mulheres todos os dias.



Você provavelmente deseja um feliz Dia da Mulher como quem deseja feliz Páscoa ou parabéns, porque parece a coisa certa a se fazer. E, talvez, pelo mesmo motivo um empregador ou dono de estabelecimento oferece rosas, bombons... Ou mensagens equivocadas como “você trabalha, cuida da casa, filhos e continua linda e de salto alto” (perpetuando a ideia de que, mesmo conquistando seu espaço no mundo, a mulher continua responsável pelo trabalho doméstico e, depois de tudo, ainda deve zelar por sua imagem meramente decorativa).

Mas não, o Dia Internacional da Mulher não é isso. O Dia Internacional da Mulher é outra coisa.

A data foi proposta pela primeira vez em 1910 por operárias que lutavam por igualdade nas condições de trabalho. Durante aquela década, ocorreram muitas manifestações na Rússia, Alemanha, Áustria, Dinamarca e nos EUA, incluindo uma ocasião que terminou em incêndio numa fábrica em NY, em 1911, matando 125 mulheres. Uma grande greve oficializou a data em 1917 na Rússia – onde o dia 8 de março é feriado. Em 1977, a ONU reconheceu o 8 de março como Dia Internacional da Mulher.

Hoje, a data originada pela luta contra séculos de opressão e a favor da igualdade entre gêneros teve seu sentido esquecido e foi transformada em uma celebração comercial...

Apenas 31% das brasileiras se descrevem como feministas. Prefiro acreditar que as outras apenas não procuraram o significado da palavra no dicionário a acreditar que elas realmente não sejam a favor de tudo o que já conquistamos.
Se hoje você tem a opção de escolher sua profissão, trabalhar fora, dirigir, votar, escolher seu/sua parceiro(a), fazer sexo sem compromisso, dar suas opiniões em uma reunião, decidir se casar ou não, ter filhos ou não, todas essas foram conquistas feministas – o movimento que luta pela igualdade de gênero e o fim da opressão feminina (recomendo o texto da Clara Averbuck, Feminismo para leigos).

Mas pensar que todos os direitos já foram alcançados não poderia ser mais inocente. Num mundo ideal, o feminismo não seria necessário. Mas ainda não vivemos em um mundo com igualdade para todos(as).

Negar a necessidade desta luta é negar que, 100 anos depois, mulheres ainda não têm as mesmas condições de trabalho dos homens. Que, na mesma posição, recebem até 30% menos. É negar que mulheres são assediadas verbalmente e fisicamente nas ruas. É negar que muitas são abusadas dentro de casa. É negar que a maioria ainda realiza todo ou maior parte do trabalho doméstico. É negar que, em muitos países, são impedidas de trabalhar, estudar, dirigir, votar ou tomar decisões. É negar que temos a sexualidade controlada, vigiada e considerada a serviço masculino. É negar muitos outros direitos que ainda não temos.

Por tudo isso, estou exausta de ouvir esses “feliz dia da mulher” vazios de significado. De receber presentinhos que não agregam em nada à data. De ver piadas e comentários preconceituosos nas redes sociais. “Haha 8 de março é dia de fulano!” (não, não basta ser homofóbico e achar que é ofensa dizer que um hétero é gay, precisa ser misógino e achar que gays querem se ~rebaixar ainda mais e virar... mulheres! O horror!). “Hoje é dia da mulher... Mas só das que têm perereca” (juro que vi essa pérola da transfobia por aí. Porque se às mulheres cis ainda são negados direitos, as trans não podem nem participar da luta). “Hoje é dia dos acidentes de trânsito” (é, décadas atrás as mulheres não sabiam dirigir, porque, né, elas não podiam). "Obrigado por estarem sempre lindas pra nós, homens" (assumindo que todas gostam de homens. E que devem sempre se preocupar com sua aparência para eles).

http://quemprecisadofeminismo.tumblr.com/
E, porque estou exausta, resolvi escrever tudo isso, mesmo não tendo costume de fazer esse tipo de post.
Não pretendo fazer um tratado sobre o Dia da Mulher. Tem gente por aí escrevendo muito melhor que eu sobre isso (só pra citar exemplos: Clara Averbuck, Aline Valek, Lola, Blogueiras Feministas, Nadia Lapa e muitas outras). Só pretendia resumir um bocado de informação que considero importantíssima para a construção de uma sociedade melhor.


Se você leu até aqui, por favor espalhe e divida a informação. E se tiver um tempinho, entre nos blogs linkados no post e aproveite o banquete de conhecimento.

E, não, não é ofensivo oferecer flores ou felicitações. Mas o que queremos mesmo é usar este dia pra lembrar a nossa luta.

3 comentários:

.mãos coloridas disse...

muito bom, Re!
mas sabe que esse ano eu vi mensagens com mais noção?
acho q ta funcionando :)

Rayanne disse...

Assino embaixo Rê! **Estrelas**

Gabriela Campagnucci disse...

Excelentes textos. Parabéns pelo blog!