Mostrando postagens com marcador racionalizando. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador racionalizando. Mostrar todas as postagens

18 de janeiro de 2016

30 de maio de 2015

baile


Entrou no salão, ainda sem máscara. Sozinha. Percorria a multidão buscando olhares que cruzassem com os seus.
Não reconhecia o lugar. Não reconhecia a música. Não reconhecia nenhum dos rostos. Mas ansiava por conhecer.
Resolveu simular uma personagem em meio àquela confusão. Vestiu adereços, assumiu a pose e dançou. Fingiu alguns passos, tentou imitar a multidão. Todos pareciam estar no mesmo ritmo, na mesma felicidade. Sorriam, dançavam, trocavam olhares.
Um passo em falso, a visão prejudicada pela máscara que não lhe servia, ela caiu. Ninguém se ofereceu para levantá-la. Os joelhos sujos de terra, confetes grudados pelas pernas, as mãos raladas que tremiam e o rosto enrubescido só aumentavam o mal-estar.
Trancou-se num quarto. 
Experimentou máscaras, ensaiou passos, tomou a vodca de um gole só.
Saiu sem saber quem era. Camuflou-se ao ambiente, trocou máscaras, falou com todos os personagens que cruzaram seu caminho.
Ao chegar ao outro lado do salão, todos haviam continuado com suas danças, suas alegrias. Nenhum deles lembrava seu nome.
Resolveu abandonar aquela festa que não lhe pertencia. Despiu a fantasia, abandonou a máscara.
Ninguém percebeu.
Se fosse outro, ninguém teria percebido.
Se fosse outro, também não teria percebido.

[da gaveta de rascunhos de 2012]

25 de janeiro de 2015

Amar é habitar outros mundos.

Amar é habitar outros mundos. E a alguns custamos tanto a nos adaptar.
Às vezes a viagem de ida é longa demais e a estadia muito curta. A volta, invariavelmente abrupta. No meio do caminho, nos põem pra fora de paraquedas e falta o chão. Difícil aterrissar em vez de cair. Você sabe que pode quebrar as pernas, mas acha que ainda está longe do solo. Você sabe que precisa procurar o caminho de volta, mas espera atônita pelo resgate. 

Você embarcaria novamente?
Arriscaria explorar outro mundo tão cedo?
Alguma vez a viagem será sem volta?

Alguns se apressam em comprar novas passagens. Mas não. Eu acho que, por enquanto, vou construir meu próprio mundo. Que seja sólido o suficiente pra próxima vez que eu precisar cair.

10 de maio de 2013

das emoções


Eu já passei por isso. E curei.

Mas é sempre assim, a ansiedade quer que tudo se resolva muito rápido.
A gente não recebe um roteiro das dificuldades que vai enfrentar, pra saber que não devia dar tanta atenção assim a esta ou àquela em particular.

Sabe o que é?
Bem-estar não é suficiente. Eu preciso de euforia.
Se você passar horas falando comigo sem me provocar um ataque de choro ou de riso, talvez eu nem me lembre do que a gente falou.

Talvez eu até grite algum dia.
E eu juro que tento me controlar.

Mas o alfaiate das minhas emoções as fez no tamanho errado. São muito maiores que eu e vivem me escapando por debaixo do tecido dos dias.

Mas saiba que se eu for grossa ou se eu te assustar, não é de propósito. Desculpe. Às vezes levo as coisas muito a sério, mas não levo pro lado pessoal não.
E esse jeito meio exagerado pode até te afastar de mim.

Mas é o contrário.

Sempre estive pedindo socorro.

29 de março de 2013

o passado



E eu aqui pensando sobre o passado. Sobre O Passado.
O nosso. O livro.

Acabei de fechá-los.
O livro, há uma hora, ainda folheio novamente em busca dos trechos preferidos.
O nosso, há uma semana, ainda revisito em busca de ganchos que permitam uma continuação.

Se for assim, preciso esquecer, você me disse.
Não há cura senão esquecer, Rímini acreditava.

Rímini esqueceu. Esqueceu Sofía, esqueceu quem era, esqueceu-se de como trabalhar, esqueceu-se de como viver. Ao se esconder do seu próprio passado, não encontrou mais a si mesmo.
Sofía não esqueceu. Mas fez o oposto de lembrar: continuou vivendo no passado.
Ambos fracassam. Ambos enlouquecem.
E, se é no passado que depois se reencontram, eles sangram.

Se não há cura para o passado, como seguir em frente?

25 de março de 2013

hierarquia orgânica

coração faz merda, cérebro manda suspender a merda. o estômago que tava lá quietinho, só fazendo seu trabalho, é quem sofre as consequências.
o estômago é o estagiário do corpo.

18 de fevereiro de 2013

A gente encontra

A gente encontra o primeiro amor. A gente acha que ele é o certo. Mas é claro que ele não dá certo.

A gente encontra o amor eterno. Esse, a gente não tem dúvidas de que vai durar. De que é melhor que o dos outros. De que apostamos as dezenas certas na loteria. Às vezes ele dura mais do que deveria. Ou pode durar pouco e marcar muito mais. Quem sabe?
Mas não, ele não é eterno. Ele acaba.

Então a gente encontra outro amor. Esse tem mais defeitos. Mas a gente entende, a gente ama. Ele é mais verdadeiro porque ele erra. Na verdade, é mais parecido conosco. Dessa vez sabemos que ele pode fugir por entre os dedos.
Então amamos. Porque, fatalmente, ele também vai acabar.

Continuamos procurando.

E talvez seja nesse momento que a gente perceba. Talvez mais tarde, ou talvez nunca.
Que, na verdade, o tempo todo, estamos procurando a mesma coisa:
por nós mesmos.


22 de janeiro de 2013

12 de janeiro de 2013

Pássaro

[mexendo em backups, achei uma coleção textos antigos. 
desengavetando alguns.]


Por que assim?
Por que só eu sinto?
Por que as ondas do mar não vêm lamber minhas pernas? Por que não vêm salgar minha alma? Por que não vêm me lavar e fazer esquecer?
Só ouço ao longe o som das ondas quebrando nas pedras.

Queria ser pedra, mas fui condenada a ser pássaro. Daqueles que voam alto e já não sabem o que acontece no chão. Daqueles que voam sós. Dos que não podem dar um mergulho no mar.

Todos acham que os pássaros são livres, mas eles são condenados a voar.


RZ, julho/2006

7 de janeiro de 2013

conversa 011

Ele - Como era aquela frase do escritor brasileiro, sobre amor e pássaros? "Amar é como ter um pássaro, ele caga na sua cabeça toda hora"?
Eu - Não, é: "Amar é ter um pássaro pousado no dedo."
Ele - Hahahaha, sim. Estou brincando.
Eu - Mas sua versão faz mais sentido.

15 de dezembro de 2012

23 de setembro de 2012

Arredio

Às vezes você está frente a frente com um problema, com a solução em suas mãos, mas ele não quer se deixar vencer.
Problemas podem ser ariscos. Podem ver suas soluções como armadilhas.
Como um animal bravio, o problema sente-se acuado e não se deixa ser capturado. Quanto mais você se aproxima, mais ele se sente perseguido. Não entende que você não quer machucá-lo, só quer curá-lo. Você tenta agarrá-lo uma, duas, várias vezes. Ele morde, arranha, faz você sangrar.
Então chega um momento em que já não há o que fazer. O problema não quer sua solução.
É melhor deixá-lo naquele canto e seguir sua vida.
Mesmo sabendo que ele continuará escondido ali, te arranhando sempre que você passar por perto.

21 de setembro de 2012

conversa 004

Eu - É um bom filme sobre relacionamentos.
Ele - Gosto de filmes assim. Eles ajudam a relativizar as coisas... Ver que essas situações não acontecem só com a gente, são temas universais.
Eu - Com certeza. Ou melhor ainda: a gente vê que sempre tem outras pessoas que se fodem mais.

14 de setembro de 2012

Prefiro

Prefiro...
verão a inverno.
gatos a cachorros.
campo à praia.
cidade grande às pequenas.
suco a refrigerante.
cerveja a vinho.
dramas a comédias.
as noites às manhãs.
Acordar tarde.
Feijão por cima do arroz.
Café sem leite.
Água com gás, gelo e limão.

E isso é uma lista de coisas que você pode saber sobre mim e mesmo assim continuar sem saber quem sou.

12 de setembro de 2012

conversa 001

Comentando um filme: 

Eu - Nossa, eles dois estão loucos.
Ele - Eles estão apaixonados.
Eu - É. Acho que é a mesma coisa.
Ele - Mas é.

9 de setembro de 2012

11 de agosto de 2012

desencontro

Encontro suas lembranças pela casa.
Suas manias na geladeira.
Seus gostos nas estantes.
Seus costumes no banheiro.
Seus vícios nos armários.
Suas manchas em nosso colchão.
Mas alguma coisa aconteceu
e não me encontro mais em você.

22 de junho de 2012

refletindo

Ando relendo meus próprios textos.
Um passatempo terapêutico e revelador.
Como olhar-se em um espelho – não como Narciso, mas em nosso próprio espelho embaçado do banheiro. Ora gostamos do que vemos, ora detestamos, e toda vez encontramos falhas que poderiam ser corrigidas. Mas não importa o que vemos, sempre nos reconhecemos ali.

15 de junho de 2012

Crisálida

Disseram-me dia desses que tenho um olhar incisivo.
(Eu, que sempre fui de baixar o olhar.)
(Eu, que sempre fui de hesitar.) 

Talvez eu, que sempre tive medo de me cortar, finalmente esteja aprendendo a afiar minhas lâminas.

Está chegando a hora da cirurgia.
Estou praticando com leves talhos sobre o mundo.
Em breve,
uma incisão bem profunda em minha carne,
e finalmente descobrirei o que se esconde dentro de mim.